Opinião | “Marty Supreme”: ambição, caos e glória

Marty Supreme” marca o regresso em força de Josh Safdie ao grande ecrã, assinando o seu segundo filme a solo (depois de “The Pleasure of Being Robbed“, de 2008) e o mais mediático desde “Uncut Gems” (co-realizado com o irmão Benny). O drama desportivo foi produzido e distribuído pela A24 e consolidou, no cinema de 2025, a estética frenética e visceral característica do cineasta num universo improvável: o ténis de mesa competitivo da Nova Iorque dos anos 1950.

No centro da narrativa está Marty Mauser (interpretado por Timothée Chalamet, que também está creditado como produtor), um prodígio judeu-americano com talento de génio e temperamento explosivo, livremente inspirado na figura real de Marty Reisman. A sinopse oficial resume o essencial: a história de um jovem atleta confrontado com as pressões da fama, do dinheiro e da moralidade, num mundo onde o talento vale tanto quanto a capacidade de resistir à queda.

Josh Safdie volta a colaborar com Ronald Bronstein na co-escrita e montagem do filme, que assume um ritmo e uma tensão constantes. A câmara inquieta, planos fechados e som imersivo criam uma sensação de urgência que reflecte bem o impulso obsessivo do protagonista.

Timothée Chalamet entrega uma das interpretações mais destacadas da sua carreira, captando fisicalidade e vulnerabilidade emocional num retrato fascinante de ambição e queda, lembrando a intensidade de performances habituais das obras dos Safdie, mas com um tom próprio.

 

“I’m the ultimate product of Hitler’s defeat.”

 

O elenco de apoio reforça o tom excessivo e humano da narrativa. Gwyneth Paltrow regressa em grande plano como uma antiga estrela de Hollywood que cruza o caminho de Marty, enquanto Odessa A’zion interpreta a sua amiga de infância e paixão impossível, dividida entre ambição e o amor. Kevin O’Leary, em estreia como ator, encarna um rival maníaco do mundo dos negócios, numa performance que ecoa a sua persona mediática de Shark Tank, e Tyler, The Creator surge como o amigo igualmente caótico e vigarista, trazendo momentos inesperados de humor.

 

 

A fotografia alterna entre os néons saturados e uma paleta vintage que reconstitui com requinte a Nova Iorque do pós-guerra, enquanto o guarda-roupa mistura o kitsch desportivo e o glamour decadente de uma época em transformação. A banda sonora, na sua maioria composta por Daniel Lopatin, mistura elementos electrónicos com referências estilísticas à época do filme.

A campanha de marketing de “Marty Supreme” tornou-se uma extensão performativa do próprio filme, com Timothée Chalamet no centro de praticamente todas as estratégias. A A24 tratou o lançamento como se fosse uma “era” de marca, combinando um forte universo visual – cartazes e merchandising em laranja vivo, tipografia retro e o agora cobiçado casaco “Marty Supreme” – com ações de rua, eventos de ténis de mesa e lançamentos faseados da banda sonora, criando a sensação de objeto de culto antes mesmo da estreia comercial.

Chalamet assumiu aqui um papel raro para um protagonista: transformou a promoção num gesto de performance, desde o falso vídeo de 18 minutos de uma reunião de Zoom interna, em que interpreta uma versão egomaníaca de si próprio a propor ideias de marketing cada vez mais absurdas, até à presença constante em eventos de imprensa, conteúdos de bastidores, posts virais e coordenados de guarda-roupa pensados ao detalhe. Esta interligação entre estrela, filme e campanha gerou um fenómeno social-first, com o ator a funcionar como verdadeiro motor viral da estratégia: os seus vídeos, entrevistas e fotografias com o merchandising tornaram-se imediatamente reconhecíveis no feed e ajudaram a consolidar “Marty Supreme” como evento cultural, mais do que apenas um filme.

O projeto cinematográfico entra na época dos prémios como um dos favoritos absolutos, com Timothée Chalamet já garantida a nomeação ao Óscar de Melhor Ator. O filme acumula nomeações nos Globos de Ouro, Critics’ Choice e BAFTA, com destaque para Melhor Filme, Realizador para Josh Safdie e Elenco, graças à química explosiva do ensemble. A A24 posiciona-o como candidato ao troféu de Melhor Filme e Banda Sonora Original, enquanto Gwyneth Paltrow e Kevin O’Leary disputam nomeações de Melhor Atriz Secundária e Ator Revelação, respetivamente. Esta onda de reconhecimento transforma o que começou como um drama desportivo improvável num sério concorrente ao grande prémio da Academia.

Marty Supreme” é, no fundo, uma parábola sobre a ambição americana – aquilo que se conquista, e o que se perde, quando tudo parece ao alcance. Josh Safdie volta a filmar o caos com uma precisão quase matemática, transformando um drama desportivo em reflexão sobre identidade, sobrevivência e a febre do sucesso.

O resultado é um dos filmes mais desafiantes e hipnóticos do ano: desconcertante, intenso e difícil de esquecer ou ignorar.


Imagens: Divulgação/A24

,

Leave a Reply

error: Content is protected !!

Discover more from girl on film

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading