Opinião | F1: The Movie: velocidade, carisma e estilo em alta rotação

– Atenção: o texto que se segue pode conter spoilers! –

 

Sonny Hayes (Brad Pitt), outrora apelidado de “o maior que nunca foi” na Fórmula 1, viu a sua promissora carreira abruptamente interrompida por um acidente quase fatal. Décadas depois, leva uma vida errante como piloto freelance, até ser surpreendido por um convite inesperado: Ruben Cervantes (Javier Bardem), antigo colega de equipa e agora gestor de uma escuderia à beira da falência, recruta-o para salvar a empresa A missão? Regressar às pistas, resgatar a equipa do colapso e orientar o jovem e impetuoso talento Joshua Pearce (Damson Idris).

À medida que as corridas se sucedem, a tensão entre o veterano e o novato intensificam-se, o passado turbulento de Hayes vem à tona, e o caminho para a redenção revela-se tão inspirador quanto sinuoso.

 

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F1 é um filme leve e vibrante, que aposta tudo no prazer visceral da velocidade. Filmado em IMAX e em circuitos reais como Silverstone e Spa-Francorchamps, entre outros, proporciona uma experiência imersiva, quase como se estivéssemos ao volante do carro de Hayes. O humor subtil entre mentor e pupilo, aliado a diálogos descontraídos e sem pretensões filosóficas, confere ao filme um charme natural.

Na realização de Joseph Kosinski, Brad Pitt é… Brad Pitt. Aos 61 anos, encarna Sonny Hayes com carisma e segurança, sem recorrer a artifícios. Consciente da idade, mas sempre elegante, o seu estilo “cowboy das pistas”, reminiscente da sua postura na trilogia Ocean’s Eleven, encaixa na perfeição numa narrativa que não pretende reinventar o género, mas sim celebrá-lo com estilo.

 

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Idris Elba? Não, Damson Idris. O actor britânico surpreende pela autenticidade no cockpit e pela química convincente com Pitt. A sua personagem, Joshua Pearce, é talentosa, impulsiva e cheia de atitude, e Idris confere-lhe uma presença magnética que consegue equilibrar bem o peso de partilhar cenas com um carismático veterano.

Kerry Condon brilha como Kate McKenna, a directora técnica da equipa, uma presença discreta mas marcante, que se impõe com inteligência e firmeza num universo dominado por homens, motores e egos inflamados. Entre decisões técnicas e tensões de bastidores, é ela quem sustenta o equilíbrio da equipa.

 

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A direcção de fotografia de Claudio Miranda é um luxo em movimento: planos fechados, ritmo frenético, e um contraste visual entre a potência das máquinas e o esforço humano. A moda também assume protagonismo, a colaboração com a Tommy Hilfiger garante um guarda-roupa irrepreensível, enquanto os acessórios Rolex acrescentam um toque de sofisticação que nunca soa forçado, apenas elegante.

 

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A banda sonora de F1: The Movie acelera em sintonia com a velocidade das pistas. Com uma mistura pulsante de electrónica atmosférica e clássicos, a música acompanha cada curva com precisão cirúrgica. A composição original, assinada por Hans Zimmer, injeta tensão e grandiosidade nas sequências de corrida, enquanto temas mais intimistas pontuam os momentos de introspecção e conflito pessoal. Há também espaço para ícones musicais, com destaque para a primeira música ouvida no filme, “Whole Lotta Love” dos Led Zeppelin, que marca a entrada triunfal de Sonny Hayes (Pitt) e estabelece de imediato o tom irreverente e energético da narrativa.

Uma escolha que não foi apenas estética, foi simbólica. Lançada em 1969, a música evoca tanto a era dourada do rock como a idade e o espírito rebelde de Hayes, funcionando como uma ponte entre o passado glorioso do protagonista e o seu regresso às pistas. A guitarra inconfundível de Jimmy Page e a voz única de Robert Plant amplificam a adrenalina da cena, tornando-a uma das mais memoráveis do filme.

 

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As verdadeiras estrelas da F1 surgem com cameos discretos, quase como adereços que reforçam a autenticidade do cenário, sem nunca roubar protagonismo à narrativa.

 

imgi_1_MV5BMzFkYjllNmYtYTQzYi00MTQ4LTlmNjktMjQzNjA[na imagem / filme: Fernando Alonso, Sergio Pérez, Carlos Sainz, Max Verstappen, Lance Stroll, Charles Leclerc]

 

Para lá da pista, F1: The Movie mergulha com detalhe nos bastidores do desporto, um mundo de decisões estratégicas, egos em colisão e pressões corporativas. A narrativa não se limita à velocidade em pista: mostra o trabalho invisível das equipas técnicas, os dilemas dos engenheiros, as tensões entre patrocinadores e a constante luta pela sobrevivência financeira das equipas.

Embora recorra a alguns clichés, o regresso redentor, o conflito geracional, a rivalidade inevitável, o filme evita o dramatismo excessivo. Não procura lições existenciais profundas, mas centra-se no essencial: emoção, adrenalina, pit-stops e um toque de romance. Um tributo sincero ao universo da Fórmula 1, sem o peso da pretensão.

 

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F1: The Movie é um espectáculo leve, empolgante e visualmente deslumbrante. A leveza do argumento, o charme irreverente de Pitt, a revelação magnética de Damson Idris e o cuidado estético convergem num cocktail cinematográfico revitalizante. O público sai da sala com vontade de ver mais, mais corridas, mais velocidade, mais glamour. E esse é, talvez, o maior triunfo do filme: ser, acima de tudo, divertido.

 

 


Imagens: Divulgação / via IMDb

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